PEP em Geriatria: Avaliação Geriátrica Ampla, Funcionalidade e Polifarmácia
Como o prontuário eletrônico deve suportar a avaliação geriátrica ampla com escalas de funcionalidade, cognição, humor e manejo de polifarmácia.
# PEP em Geriatria: Avaliação Geriátrica Ampla, Funcionalidade e Polifarmácia
A geriatria tem uma abordagem ao paciente fundamentalmente diferente de outras especialidades. Mais do que tratar doenças isoladas, o geriatra avalia a funcionalidade global, a rede de suporte, a cognição, o humor, a mobilidade e o impacto cumulativo de múltiplas condições crônicas. O prontuário eletrônico que não contempla essa complexidade é inadequado para o cuidado ao idoso.
Avaliação Geriátrica Ampla (AGA)
O que é a AGA
A Avaliação Geriátrica Ampla é um processo diagnóstico multidimensional que identifica problemas médicos, funcionais, psicossociais e ambientais do idoso. É o pilar da prática geriátrica e deve ser documentada de forma estruturada no prontuário.
Na prática: O prontuário geriátrico integra avaliação funcional, cognitiva e social ao registro clínico — a visão fragmentada por especialidade não atende a complexidade do paciente idoso.
Domínios da AGA
Funcionalidade — Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD):
- Escala de Katz ou Barthel
- Capacidade de: banho, vestir-se, uso do banheiro, transferência, continência, alimentação
- Pontuação e classificação de dependência
Funcionalidade — Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD):
- Escala de Lawton-Brody
- Capacidade de: usar telefone, fazer compras, preparar refeições, cuidar da casa, lavar roupa, usar transporte, tomar medicamentos, manejar finanças
- Diferença entre "não faz porque não pode" e "não faz porque nunca fez"
Cognição:
- Mini Exame do Estado Mental (MEEM) — ajustado por escolaridade
- MoCA (Montreal Cognitive Assessment)
- Teste do relógio
- Fluência verbal (animais em 1 minuto)
- Resultado e interpretação contextualizada
Humor:
- Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15 ou GDS-5)
- Critérios diagnósticos de depressão no idoso
- Diferenciação de apatia, luto e depressão
Mobilidade e equilíbrio:
- Timed Up and Go (TUG)
- Velocidade de marcha
- Escala de Berg (equilíbrio)
- Histórico de quedas (número, circunstância, consequências)
- Sarcopenia: força de preensão, circunferência de panturrilha
Nutrição:
- Mini Nutritional Assessment (MNA)
- Perda de peso involuntária
- IMC (com faixas diferentes para idosos)
- Disfagia (se presente)
Sensorial:
- Visão (última avaliação, uso de correção)
- Audição (teste do sussurro, audiometria)
- Impacto funcional das perdas sensoriais
Social:
- Rede de suporte (quem cuida, quem mora junto)
- Cuidador principal e sobrecarga do cuidador (Zarit)
- Situação financeira
- Moradia (barreiras arquitetônicas, segurança)
- Isolamento social
Como o PEP deve estruturar a AGA
Instrumentos padronizados integrados
Cada escala deve existir como formulário estruturado no sistema:
- Campos com opções pré-definidas (evita interpretação livre)
- Cálculo automático de pontuação
- Classificação automática (independente, dependência parcial, dependente)
- Comparação com avaliações anteriores (tendência)
- Alerta quando há deterioração significativa
Visão longitudinal
O valor da AGA está na comparação temporal. O sistema deve:
- Mostrar evolução de cada escala ao longo do tempo (gráfico)
- Destacar mudanças significativas entre avaliações
- Correlacionar mudanças com eventos (hospitalização, queda, início de medicamento)
- Permitir periodicidade de reavaliação configurável por domínio
Problema list geriátrica
A lista de problemas do idoso difere da lista de diagnósticos CID:
- Inclui síndromes geriátricas (fragilidade, sarcopenia, incontinência)
- Inclui problemas funcionais (dependência para banho, risco de queda)
- Inclui problemas sociais (cuidador sobrecarregado, insegurança alimentar)
- Prioriza pelo impacto funcional, não pela gravidade da doença
Polifarmácia: o desafio geriátrico
Definição e prevalência
Polifarmácia é geralmente definida como uso de 5 ou mais medicamentos regulares. Em idosos, é extremamente comum devido à coexistência de múltiplas condições crônicas.
O problema não é o número em si, mas:
- Interações medicamentosas cumulativas
- Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos
- Cascata prescritiva (medicamento para tratar efeito colateral de outro)
- Aderência comprometida pela complexidade do regime
- Risco aumentado de reações adversas
Ferramentas de apoio no PEP
Critérios de Beers (AGS):
O sistema deve alertar quando medicamentos listados nos critérios de Beers são prescritos para idosos. Exemplos: benzodiazepínicos de longa duração, anti-histamínicos de primeira geração, AINEs de uso crônico.
Critérios STOPP/START:
- STOPP: medicamentos que devem ser suspensos em idosos em determinados contextos
- START: medicamentos que devem ser iniciados e estão sendo omitidos
Carga anticolinérgica:
Medicamentos com propriedades anticolinérgicas (muitos antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos, antiespasmódicos) têm efeito cumulativo no idoso. O sistema pode calcular a carga anticolinérgica total e alertar quando excessiva.
Reconciliação medicamentosa:
Em cada atendimento, o sistema deve permitir:
- Confirmação de todos os medicamentos em uso
- Identificação de discrepâncias (prescrição versus o que o paciente realmente toma)
- Registro de automedicação e fitoterápicos
- Ajuste de doses para função renal (clearance de creatinina estimado)
Desprescrição
A desprescrição — processo deliberado de reduzir ou suspender medicamentos quando o risco supera o benefício — deve ser documentada com justificativa:
- Qual medicamento foi suspenso/reduzido
- Por qual motivo (critérios utilizados)
- Plano de monitoramento pós-desprescrição
- O que fazer se sintomas retornarem
Planejamento de cuidados avançados
Diretivas antecipadas de vontade
O prontuário geriátrico deve ter espaço destacado para:
- Preferências do paciente sobre medidas em fim de vida
- Procurador de saúde designado
- Limites terapêuticos definidos (não intubar, não reanimar, não dializar)
- Prioridades declaradas (conforto versus prolongamento de vida)
- Data da última discussão e revisão
Prognóstico e fragilidade
Escalas de fragilidade (Clinical Frailty Scale, por exemplo) ajudam a contextualizar decisões:
- Paciente robusto: tratamento agressivo pode ser apropriado
- Paciente frágil: foco em qualidade de vida e função
- Paciente em fim de vida: prioridade absoluta ao conforto
Comunicação com cuidadores
Registro do cuidador
O sistema deve identificar:
- Quem é o cuidador principal
- Contato para emergências
- Nível de sobrecarga (Zarit periodicamente)
- Competências para cuidado (treinamento recebido)
- Decisões que o cuidador pode tomar em nome do paciente
Plano de cuidados compartilhado
Orientações de alta ou de acompanhamento devem ser:
- Escritas em linguagem simples
- Imprimíveis ou enviáveis ao cuidador
- Incluindo sinais de alarme claros
- Com contatos para dúvidas
Indicadores de qualidade em geriatria
- Proporção de idosos com AGA completa documentada
- Taxa de quedas em pacientes institucionalizados
- Prevalência de polifarmácia e uso de medicamentos inapropriados
- Tempo entre queda e avaliação multidisciplinar
- Proporção de pacientes com diretivas antecipadas registradas
- Funcionalidade na alta comparada com admissão
Perguntas Frequentes
O que é um prontuário eletrônico do paciente (PEP)?
O prontuário eletrônico é o sistema digital que armazena todas as informações de saúde do paciente: histórico clínico, exames, prescrições, evoluções e documentos. Substitui o prontuário em papel com vantagens de legibilidade, acesso simultâneo por múltiplos profissionais, busca rápida e integração com sistemas de apoio à decisão.
Quais as vantagens do prontuário eletrônico para o paciente?
Para o paciente, as principais vantagens incluem: redução de repetição de exames desnecessários, maior segurança na prescrição (alertas de alergia e interação), acesso ao próprio histórico via portal, comunicação facilitada com a equipe de saúde e continuidade de cuidado quando muda de serviço.
O prontuário eletrônico é seguro?
Quando implementado com padrões adequados (criptografia, controle de acesso, logs de auditoria, backup), o prontuário eletrônico é mais seguro que o papel — que pode ser perdido, destruído, acessado sem registro ou falsificado sem rastro. A segurança depende da qualidade da implementação e das políticas institucionais.
Conclusão
O prontuário eletrônico em geriatria precisa refletir a complexidade do cuidado ao idoso. Não basta listar diagnósticos — é necessário documentar funcionalidade, cognição, suporte social, preferências de cuidado e a interação entre múltiplas condições e tratamentos. O PEP que estrutura a avaliação geriátrica ampla, alerta sobre medicamentos inapropriados e acompanha a trajetória funcional do paciente torna-se ferramenta ativa de qualidade no cuidado a essa população.