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PEP em Geriatria: Avaliação Geriátrica Ampla, Funcionalidade e Polifarmácia

Como o prontuário eletrônico deve suportar a avaliação geriátrica ampla com escalas de funcionalidade, cognição, humor e manejo de polifarmácia.

Dra. Isabela Torres22 de fevereiro de 20267 min

# PEP em Geriatria: Avaliação Geriátrica Ampla, Funcionalidade e Polifarmácia

A geriatria tem uma abordagem ao paciente fundamentalmente diferente de outras especialidades. Mais do que tratar doenças isoladas, o geriatra avalia a funcionalidade global, a rede de suporte, a cognição, o humor, a mobilidade e o impacto cumulativo de múltiplas condições crônicas. O prontuário eletrônico que não contempla essa complexidade é inadequado para o cuidado ao idoso.

Avaliação Geriátrica Ampla (AGA)

O que é a AGA

A Avaliação Geriátrica Ampla é um processo diagnóstico multidimensional que identifica problemas médicos, funcionais, psicossociais e ambientais do idoso. É o pilar da prática geriátrica e deve ser documentada de forma estruturada no prontuário.

Na prática: O prontuário geriátrico integra avaliação funcional, cognitiva e social ao registro clínico — a visão fragmentada por especialidade não atende a complexidade do paciente idoso.

Domínios da AGA

Funcionalidade — Atividades Básicas de Vida Diária (ABVD):

  • Escala de Katz ou Barthel
  • Capacidade de: banho, vestir-se, uso do banheiro, transferência, continência, alimentação
  • Pontuação e classificação de dependência

Funcionalidade — Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD):

  • Escala de Lawton-Brody
  • Capacidade de: usar telefone, fazer compras, preparar refeições, cuidar da casa, lavar roupa, usar transporte, tomar medicamentos, manejar finanças
  • Diferença entre "não faz porque não pode" e "não faz porque nunca fez"

Cognição:

  • Mini Exame do Estado Mental (MEEM) — ajustado por escolaridade
  • MoCA (Montreal Cognitive Assessment)
  • Teste do relógio
  • Fluência verbal (animais em 1 minuto)
  • Resultado e interpretação contextualizada

Humor:

  • Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15 ou GDS-5)
  • Critérios diagnósticos de depressão no idoso
  • Diferenciação de apatia, luto e depressão

Mobilidade e equilíbrio:

  • Timed Up and Go (TUG)
  • Velocidade de marcha
  • Escala de Berg (equilíbrio)
  • Histórico de quedas (número, circunstância, consequências)
  • Sarcopenia: força de preensão, circunferência de panturrilha

Nutrição:

  • Mini Nutritional Assessment (MNA)
  • Perda de peso involuntária
  • IMC (com faixas diferentes para idosos)
  • Disfagia (se presente)

Sensorial:

  • Visão (última avaliação, uso de correção)
  • Audição (teste do sussurro, audiometria)
  • Impacto funcional das perdas sensoriais

Social:

  • Rede de suporte (quem cuida, quem mora junto)
  • Cuidador principal e sobrecarga do cuidador (Zarit)
  • Situação financeira
  • Moradia (barreiras arquitetônicas, segurança)
  • Isolamento social

Como o PEP deve estruturar a AGA

Instrumentos padronizados integrados

Cada escala deve existir como formulário estruturado no sistema:

  • Campos com opções pré-definidas (evita interpretação livre)
  • Cálculo automático de pontuação
  • Classificação automática (independente, dependência parcial, dependente)
  • Comparação com avaliações anteriores (tendência)
  • Alerta quando há deterioração significativa

Visão longitudinal

O valor da AGA está na comparação temporal. O sistema deve:

  • Mostrar evolução de cada escala ao longo do tempo (gráfico)
  • Destacar mudanças significativas entre avaliações
  • Correlacionar mudanças com eventos (hospitalização, queda, início de medicamento)
  • Permitir periodicidade de reavaliação configurável por domínio

Problema list geriátrica

A lista de problemas do idoso difere da lista de diagnósticos CID:

  • Inclui síndromes geriátricas (fragilidade, sarcopenia, incontinência)
  • Inclui problemas funcionais (dependência para banho, risco de queda)
  • Inclui problemas sociais (cuidador sobrecarregado, insegurança alimentar)
  • Prioriza pelo impacto funcional, não pela gravidade da doença

Polifarmácia: o desafio geriátrico

Definição e prevalência

Polifarmácia é geralmente definida como uso de 5 ou mais medicamentos regulares. Em idosos, é extremamente comum devido à coexistência de múltiplas condições crônicas.

O problema não é o número em si, mas:

  • Interações medicamentosas cumulativas
  • Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos
  • Cascata prescritiva (medicamento para tratar efeito colateral de outro)
  • Aderência comprometida pela complexidade do regime
  • Risco aumentado de reações adversas

Ferramentas de apoio no PEP

Critérios de Beers (AGS):

O sistema deve alertar quando medicamentos listados nos critérios de Beers são prescritos para idosos. Exemplos: benzodiazepínicos de longa duração, anti-histamínicos de primeira geração, AINEs de uso crônico.

Critérios STOPP/START:

  • STOPP: medicamentos que devem ser suspensos em idosos em determinados contextos
  • START: medicamentos que devem ser iniciados e estão sendo omitidos

Carga anticolinérgica:

Medicamentos com propriedades anticolinérgicas (muitos antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos, antiespasmódicos) têm efeito cumulativo no idoso. O sistema pode calcular a carga anticolinérgica total e alertar quando excessiva.

Reconciliação medicamentosa:

Em cada atendimento, o sistema deve permitir:

  • Confirmação de todos os medicamentos em uso
  • Identificação de discrepâncias (prescrição versus o que o paciente realmente toma)
  • Registro de automedicação e fitoterápicos
  • Ajuste de doses para função renal (clearance de creatinina estimado)

Desprescrição

A desprescrição — processo deliberado de reduzir ou suspender medicamentos quando o risco supera o benefício — deve ser documentada com justificativa:

  • Qual medicamento foi suspenso/reduzido
  • Por qual motivo (critérios utilizados)
  • Plano de monitoramento pós-desprescrição
  • O que fazer se sintomas retornarem

Planejamento de cuidados avançados

Diretivas antecipadas de vontade

O prontuário geriátrico deve ter espaço destacado para:

  • Preferências do paciente sobre medidas em fim de vida
  • Procurador de saúde designado
  • Limites terapêuticos definidos (não intubar, não reanimar, não dializar)
  • Prioridades declaradas (conforto versus prolongamento de vida)
  • Data da última discussão e revisão

Prognóstico e fragilidade

Escalas de fragilidade (Clinical Frailty Scale, por exemplo) ajudam a contextualizar decisões:

  • Paciente robusto: tratamento agressivo pode ser apropriado
  • Paciente frágil: foco em qualidade de vida e função
  • Paciente em fim de vida: prioridade absoluta ao conforto

Comunicação com cuidadores

Registro do cuidador

O sistema deve identificar:

  • Quem é o cuidador principal
  • Contato para emergências
  • Nível de sobrecarga (Zarit periodicamente)
  • Competências para cuidado (treinamento recebido)
  • Decisões que o cuidador pode tomar em nome do paciente

Plano de cuidados compartilhado

Orientações de alta ou de acompanhamento devem ser:

  • Escritas em linguagem simples
  • Imprimíveis ou enviáveis ao cuidador
  • Incluindo sinais de alarme claros
  • Com contatos para dúvidas

Indicadores de qualidade em geriatria

  • Proporção de idosos com AGA completa documentada
  • Taxa de quedas em pacientes institucionalizados
  • Prevalência de polifarmácia e uso de medicamentos inapropriados
  • Tempo entre queda e avaliação multidisciplinar
  • Proporção de pacientes com diretivas antecipadas registradas
  • Funcionalidade na alta comparada com admissão

Perguntas Frequentes

O que é um prontuário eletrônico do paciente (PEP)?

O prontuário eletrônico é o sistema digital que armazena todas as informações de saúde do paciente: histórico clínico, exames, prescrições, evoluções e documentos. Substitui o prontuário em papel com vantagens de legibilidade, acesso simultâneo por múltiplos profissionais, busca rápida e integração com sistemas de apoio à decisão.

Quais as vantagens do prontuário eletrônico para o paciente?

Para o paciente, as principais vantagens incluem: redução de repetição de exames desnecessários, maior segurança na prescrição (alertas de alergia e interação), acesso ao próprio histórico via portal, comunicação facilitada com a equipe de saúde e continuidade de cuidado quando muda de serviço.

O prontuário eletrônico é seguro?

Quando implementado com padrões adequados (criptografia, controle de acesso, logs de auditoria, backup), o prontuário eletrônico é mais seguro que o papel — que pode ser perdido, destruído, acessado sem registro ou falsificado sem rastro. A segurança depende da qualidade da implementação e das políticas institucionais.

Conclusão

O prontuário eletrônico em geriatria precisa refletir a complexidade do cuidado ao idoso. Não basta listar diagnósticos — é necessário documentar funcionalidade, cognição, suporte social, preferências de cuidado e a interação entre múltiplas condições e tratamentos. O PEP que estrutura a avaliação geriátrica ampla, alerta sobre medicamentos inapropriados e acompanha a trajetória funcional do paciente torna-se ferramenta ativa de qualidade no cuidado a essa população.

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